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Izabel Maria Bezerra dos Santos

Izabel Maria Bezerra dos Santos
Publicado dia 30 de ago de 2019 às 17:32

Salas do Projeto Adapta simulam previsões do IPCC para avaliar condições ambientais futuras na Amazônia

Locais são usados como laboratório para pesquisar como peixes, plantas, insetos e fungos da região responderão às mudanças em cenários ambientais futuros

Salas do Projeto Adapta simulam previsões do IPCC para avaliar condições ambientais futuras na Amazônia

Corredor de acesso às salas climáticas. Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa

Em Manaus (AM), pesquisadores do projeto Adaptações da Biota, Aquática da Amazônia (Adapta) utilizam resultados dos modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para simular condições ambientais futuras em salas climáticas. Os locais servem de laboratório para estudar como peixes, plantas, insetos e fungos da Amazônia responderão às mudanças em cenários ambientais futuros. 

Localizadas no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem), do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), as quatro salas, de 25 metros cúbicos cada, reproduzem as condições climáticas do ano de 2100 seguindo as previsões do IPCC para temperatura, concentração de dióxido de carbono (CO2) e umidade relativa do ar.

“Construímos quatro salas climáticas que reproduzem o cenário ambiental. A primeira sala, chamada de controle, reproduz as condições climáticas atuais da Floresta Amazônica. A segunda, representando um cenário brando, simula um clima baseado em uma concentração de 250 partes por milhão (ppm) de CO2, acima das concentrações atuais, e 1oC mais quente. Na terceira, representando um cenário intermediário, há uma concentração aumentada em 400 ppm de CO2 em relação a concentração atual e 2,5oC mais quente. Já a quarta sala, representa uma condição drástica, em que a concentração de CO2 é aumentada em 850 ppm acima dos níveis atuais e a temperatura é 4,5oC mais quente”, explica o coordenador do projeto Adapta, o biólogo Adalberto Luís Val.

Todas as salas são exatamente iguais. Possuem a mesma estrutura com tanques, de plástico e vidro; recintos vedados com telas para experimentos com mosquitos; e um balcão com pia de mármore e torneira d’água. Somente os pesquisadores envolvidos em atividades em andamento nas salas têm acesso ao local. A circulação frequente de pessoas não é restrita, pois a presença e respiração humanas nos locais altera as condições do ambiente.

“Tudo nas salas está de acordo com o previsto pelo IPCC, que faz modelagens baseadas na perspectiva da sociedade e estima o cenário ambiental para o futuro. Se a sociedade continuar o que está fazendo hoje, teremos um cenário drástico. Nós elegemos o cenário para 2100, por ser emblemático, pois ou conseguimos mudar ou vamos viver períodos de grandes desafios para a humanidade”, explica Val. 

Segundo ele, as simulações realizadas nas salas dispõem de um conjunto de sensores em uma reserva florestal que medem os níveis de CO2, temperatura, umidade e luminosidade no local. Por meio de rádio, a cada dois minutos, as informações são transmitidas para os computadores do laboratório, que ajustam as máquinas e criam na sala controle as mesmas condições da floresta. “Essas condições variam de acordo com aquilo que tem na floresta: durante o dia, a floresta faz fotossíntese e tira CO2 do ar, mas, durante a noite ela respira e devolve o CO2 para o ar. Ou seja, temos oscilações da quantidade de CO2, temperatura, etc.”, acrescenta.

Pesquisas

Nas salas, há cerca de dez anos, são incubados peixes, plantas, insetos e fungos para observar como eles reagem nesses diferentes cenários. “Vimos logo de pronto que havia um impacto muito grande nesses organismos em um curto espaço de tempo. Assim, houve a necessidade de avançar nessas pesquisas para saber o porquê que eles reagiam dessa forma e produzir novas informações para minimizar o efeito das mudanças”, explica Adalberto. Alguns exemplos dos resultados dessas pesquisas dizem respeito aos mosquitos da malária, ao tambaqui e a plantas.

No caso dos mosquitos da malária, eles terão gerações mais curtas e portanto um número maior de mosquitos presentes no ambiente. “Isso pode indicar que teremos mais chances de propagação da doença, ou não, se eles não estiverem na fase de transmissão da doença”, explica. “É preciso ir além dos resultados referentes a biologia reprodutiva. Em pouco tempo teremos novas informações sobre a habilidade dos mosquitos em transmitir as doenças amazônicas”, acrescenta.

O tambaqui, muito apreciado na gastronomia amazônica e proveniente da piscicultura, apresentou problemas de desenvolvimento. “Cerca de 40% das larvas, nos primeiros 16 dias de vida, apresentaram deformações esqueléticas profundas como problemas na mandíbula, cifose, escoliose. Isso significa uma perda muito grande para piscicultura e se for no ambiente natural, é maior ainda. Os peixes com deformação não vão conseguir sobreviver à predação, pois não terão como fugir dos predadores naturais por não conseguirem nadar mais rápido”, diz.

Já as plantas apresentaram crescimento acentuado nos cenários mais drásticos. “Isso quer dizer, em tese, que teríamos florestas maiores nos cenários intermediário e drástico. Mas também notamos que os parasitas fitófagos, que comem as plantas, aumentam de forma significativa. Portanto, no final, a biomassa, que é a quantidade de plantas que temos, seria menor, porque teríamos mais parasitas comendo as plantas”, acrescenta.

Futuro

Adalberto Luís Val defende o alinhamento de ações e discursos entre pesquisadores e tomadores de decisões, como os governos. Ele explica que a Ciência produz matéria-prima para subsidiar políticas públicas que preparam hoje o mundo para o futuro.

“Precisamos deixar o planeta preparado para gerações futuras. É esse o trabalho da pesquisa científica. A Ciência é uma atividade social com fins sociais, que deve se antecipar ao seu tempo. Quando os cientistas produziram os primeiros antibióticos, eles não sabiam para que serviria. Depois salvou um monte de gente na Segunda Guerra Mundial. Quando produzimos os primeiros motores a combustão, ninguém sabia que teríamos carros e aviões”, exemplifica.

O pesquisador também defende que “não existe mais ciência neutra”. “Hoje, fazemos ciência para sociedade. Quando fazemos Ciência no Adapta, em Manaus, estamos preocupados com a região onde vivemos, a Amazônia, e com o que ela representa para o mundo. Cada vez mais precisamos ter de fato a Ciência exercendo o seu papel social”, finaliza.

Projeto Adapta

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia “Adaptações da Biota, Aquática da Amazônia (INCT/Adapta)” foi implantado em 2009 com o objetivo de avaliar os processos adaptativos das espécies em diferentes ambientes, naturais ou modificados pelo homem. A iniciativa tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Inpa.