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Izabel Maria Bezerra dos Santos

Izabel Maria Bezerra dos Santos
Publicado dia 26 de ago de 2019 às 23:57

Pesquisa avalia estratégias de alimentação para peixe amazônico baseado em hábitos de vida

Estudo pode proporcionar economia de ração, aprimoramento da saúde e aumentos dos planteis dos piscicultores

Pesquisa avalia estratégias de alimentação para peixe amazônico baseado em hábitos de vida

Uma pesquisa realizada no âmbito do projeto Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (Adapta) estuda estratégias de alimentação com prebióticos, os quais prometem garantir crescimento satisfatório e boa saúde para aos animais. Durante o desenvolvimento da sua tese, o doutorando em Aquicultura, Arlan de Lima Paz, encontrou resultados positivos em testes com privação alimentar combinada a suplementação dietética com frutooligossacarídeos (FOS). A pesquisa é promissora, pois pode proporcionar economia de ração e aprimoramento da saúde e crescimento dos planteis dos piscicultores.

A ideia partiu da teoria que preconiza a habilidade que peixes e répteis têm de compensar o crescimento perdido durante um período de subnutrição. “Eles já passam um período de fome na natureza, em virtude dos ciclos de seca e cheia dos rios amazônicos, que é quando a oferta de alimentos muda. Quando acontece uma reoferta de alimentos, esses animais conseguem repor o que foi perdido e chegam a crescer até o dobro do previsto. Evolutivamente, os animais desenvolveram processos adaptativos fisiológicos que o ajudam a suportar os períodos sem alimento nos ambientes naturais”, explica. “Com base nisso, avaliamos que a maneira como os peixes são alimentados pode ser inadequada, pois é uma forma humanizada. Comparativamente, hoje os peixes de ambientes produtivos tomam o equivalente o café, o almoço e o jantar, mas isso se distingue bastante do que ocorre na natureza”, acrescenta.

Arlan adotou duas estratégias: a primeira, com a privação alimentar; a segunda, com a adoção do uso prebióticos, que são carboidratos complexos presentes em diversos alimentos presentes na dieta do homem e outras espécies. Os prebióticos usados na pesquisa em questão foram extraídos da chicória, mas ele também é encontrado no tomate, na cana-de-açúcar e no alho. “Esse carboidrato estimula o crescimento e o metabolismo de bactérias probióticas. Essas bactérias, por sua vez, ajudam os peixes na absorção de carboidratos, proteínas e nutrientes, o que favorece no fim das contas o desempenho em crescimento e com mais saúde desse peixe”, diz o pesquisador.

Ao todo, o pesquisador aplicou cinco níveis de prebióticos em testes que variavam de zero, índice referência, a 2%. “Obtivemos resultados melhores com 0,5%, quando a imunidade e o número de leucócitos dos animais subiram, tiveram melhor resposta à fagocitose, cresceram melhor, ou seja, deu certo”, revela. O segundo experimento com bons resultados foi o de digestibilidade, para saber se realmente o animal absorveu melhor os nutrientes do alimento. Já o terceiro experimento foi realizado considerando os resultados dos dois primeiros experimentos.

“Alimentei dois grupos de peixes, um com a melhor dieta contendo o melhor nível de FOS que encontramos e outro, o grupo controle, com a ração comercial, por 15 dias. Depois, eles foram privados de comida por 10 dias. Em seguida, os realimentei. Ambos os grupos suportaram muito bem as condições. Mas o grupo que recebeu o FOS reagiu melhor recuperando o crescimento e a saúde. Os demais, não. O crescimento compensatório não foi adequado. A melhor notícia é que economizamos 30% de ração e não perdemos em nada em crescimento e biomassa”, comemora Arlan.

Humanização da alimentação vs. vida livre

Durante o período de cheias na Amazônia, o tambaqui migra para as várzeas dos rios para se alimentar dos frutos que caem das árvores na água. Paz afirma que existem estudos que garantem a presença prebióticos em frutos fibrosos. Mas recomenda mais estudos que explorem as composições nutricionais desses frutos. “O estilo de vida do animal dá pistas sobre como ele deve ser criado em cativeiro. Podemos ter uma boa economia de ração se olharmos com mais afinco as estratégias que os peixes utilizam para sua sobrevivência na natureza”, aposta.

“Ainda estamos engatinhando em tecnologias para a produção de tambaqui. Ainda não sabemos qual a ração ideal, como reproduzir a espécie em laboratórios com protocolos específicos, etc. A tilápia, por exemplo, tem um pacote tecnológico mais robusto”, destaca. Um dos problemas de privar os peixes de alimentação é o status imunitário. Para um animal confinado em viveiros, as chances do desenvolvimento e propagação de doenças aumentam sobremaneira. “Daí a ideia de inserir um prebiótico na alimentação, para fortalecer a imunidade do tambaqui”, finaliza.

Sobre o pesquisador

O doutorando Arlan de Lima Paz foi o palestrante do dia 26 de agosto do seminário semanal do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem), onde cursa doutorado em Aquicultura pelo Centro Universitário Nilton Lins em ampla associação com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (UNINILTO LINS/Inpa). O título da apresentação foi “Os caminhos do crescimento do peixe amazônico tambaqui (Colossoma macropomum): Aspectos nutricionais, bioquímicos e estilo de vida”. Arlan possui graduação em tecnologia em Aquicultura pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), mestrado em Aquicultura pela UNINILTON LINS/Inpa. Tem vínculo de professor colaborador na Universidade Estadual do Amazonas (UEA), experiência na área de Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca e Fisiologia, atuando nas seguintes áreas: piscicultura e fisiologia comparada de peixes tropicais. Tem se empenhado no estudo de componentes nutracêuticos, tais como: prebióticos, probióticos e óleos essenciais e estratégias de manejo alimentar para peixes de criação.