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Izabel Maria Bezerra dos Santos

Izabel Maria Bezerra dos Santos
Publicado dia 29 de jul de 2019 às 23:23

Grupo de pesquisa avalia incidência e impactos de acidentes com serpentes no Amazonas

Estudo reúne dados sobre acidentes com serpentes Nas calhas do Rio Juruá e Solimões

Grupo de pesquisa avalia incidência e impactos de acidentes com serpentes no Amazonas

Na imagem, uma serpente da espécie Bothrops atrox, popularmente conhecida como jararacá. Foto: Reprodução/Anthony Giardenelli-Otorongo Expeditions

Estudo realizado por um grupo de pesquisa da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) reúne dados sobre a incidência de casos de acidentes com serpentes no Amazonas. O estudo abordou vítimas de envenenamento ofídico em comunidades ribeirinhas das calhas do Rio Juruá e Solimões. Além disso, traz informações importantes sobre as condições socieconômicas das vítimas e o impacto que a situação gera para o indivíduo e comunidades no interior do estado. 

As informações foram apresentadas pelo professor doutor Fernando Val, fisioterapeuta da FMT-HVD, no seminário semanal do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Com a palestra “Limitação funcional em vítimas de acidentes ofídicos: uma estimativa da incidência, impacto e fatores associados à incapacidade física no Amazonas, Brasil”, ele falou sobre o contexto da situação nas Calhas dos rios Solimões e Juruá.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

De acordo com resultados dos estudos do grupo, em 70% dos casos, as vítimas são homens, com idade superior a 16 anos, trabalhadores rurais e com renda de até um salário-mínimo. A maioria dos envenenamentos registrados envolvem serpentes do gênero Bothrops ou Lachesis, atingem membros inferiores (pés e pernas) e ocorrem em locais de plantação e mata fechada, mas também nas proximidades da casa das vítimas em alguns casos. A informação mais preocupante é que as vítimas podem demorar até mais de 24h para procurar ajuda médica ou mesmo chegar a um hospital.

“Na Amazônia, temos uma topografia fluvial muito complexa. O deslocamento das pessoas é feito majoritariamente através dos rios. Eles dependem da disponibilidade de uma embarcação e gasolina. Muitas vezes, esses acidentes acontecem no meio da mata, por isso as pessoas demoram a chegar aos locais de atendimento específicos, para receber o soro antiofídico e outras medidas necessárias”, acrescenta o fisioterapeuta.

Ele diz ainda que, pelo fato do soro antiofídico só estar disponível nas sedes dos municípios, e estes locais nem sempre serem de fácil e rápido acesso pelos moradores de comunidades mais afastadas, o pronto atendimento das vítimas de envenenamento ofídico fica prejudicado. Isso torna o intervalo entre o acidente e o atendimento em saúde ainda maior. “Quanto maior esse tempo, piores são os desfechos clínicos, aumentando a gravidade das manifestações locais e sistêmicas, podendo inclusive levar a vítima à morte”, diz Fernando.

“Sabemos da repercussão que um acidente ofídico pode ter na vida das pessoas. Um dos aspectos que estamos estudando é a cronicidade pós-envenenamento, por exemplo. Muitas vezes, a pessoa que é picada, não recebe o tratamento médico de maneira imediata, e posterior abordagem de reabilitação, o que leva ao desenvolvimento de sequelas. Essas sequelas podem ser incapacitantes, impondo limitações funcionais à vítima. Soma-se a isso o aspecto que fica: os fatores psicológicos e físicos, que acabam limitando o retorno dessa pessoa à sua vida pregressa, diminuindo bastante sua qualidade de vida”, explica o professor.

Impacto econômico e social

Fernando Val chama a atenção para a idade e o sexo da maioria das vítimas: homens em idade produtiva. As características indicam que os acidentes têm potencial para gerar impacto financeiro negativo na vida de famílias e, consequentemente, da comunidade onde estão inseridas. “Esse tipo de pesquisa é já foi realizada em diversos locais do mundo com grande incidência de envenenamentos envolvendo animais peçonhentos, principalmente serpentes, e aqui na Amazônia nós começamos a avançar no levantamento desses dados. Estes mostrara, por exemplo, um impacto negativo na ordem de milhões de dólares, tanto pelos custos hospitalares, mas mais ainda pela perda de produtividade secundária a morte prematura ou morbidades”, revela.

Pesquisa

As pesquisas são desenvolvidas por alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado brasileiros e estrangeiros sob orientação de professores doutores que compõe o Centro de Pesquisa Clínica em Envenenamento por Animais (CEPCLAM) no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da FMT-HVD em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e são financiados por agências de fomento como a FAPEAM e CNPq/CAPES. Além disso, o grupo colabora com institutos de grande tradição em pesquisa com animais peçonhentos, como o Instituto Butantã, e a FIOCRUZ. O trabalho com a investigação dos fatores ligados ao impacto do acidente ofídico no âmbito funcional das vítimas fomenta um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) previstos na Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU).

“O ODS 3 tem entre as suas metas assegurar, até 2030, uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Isso significa dar acesso a um tratamento de saúde adequado e completo a toda a população, mesmo em áreas vulneráveis, tanto do ponto de vista da saúde física quanto social e cultural. Ainda não temos essas pessoas recebendo o tratamento adequado e muito menos atenção pós alta hospitalar. Ou seja, por mais que a pessoa sobreviva, ela acaba por desenvolver alguma sequela que pode piorar com a não abordagem multidisciplinar do processo de reabilitação desse cidadão. Isso se configura em mais um fator complicador, pois não adianta a vítima ser tratada, mas ficar sem funcionalidade para a sua comunidade. Entender quais são os fatores que compõe este cenário nos ajudará a melhor traçar estratégias para abordar o problema.”, finaliza.

Sobre o pesquisador

Fernando Val é graduado em Fisioterapia pela Universidade de São Paulo (USP). Se dedicou durante um ano à prática clínica e pesquisa na área de Reabilitação Cardiovascular junto ao Laboratório de Fisiologia do Exercício da Divisão de Cardiologia do Hospital das Clínicas. Trabalha como fisioterapeuta na UTI da Unidade Hospitalar da Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) em Manaus (AM), com pacientes acometidos por doenças infecto-parasitárias. Obteve o título de doutor em Doenças Tropicais e Infecciosas pelo Programa de Pós-graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em convênio com a FMT-HVD. É também membro colaborador do Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema (IPCCB) atuando em projetos de pesquisa com cooperação nacional e internacional. Atua como membro no corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical (FMT-HVD/UEA) e Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (Ufam). Desde 2012 atua como coordenador de ensaios clínicos na área de medicina tropical em cooperação com instituições e empresas nacionais e internacionais.