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Izabel Maria Bezerra dos Santos

Izabel Maria Bezerra dos Santos
Publicado dia 04 de fev de 2020 às 15:45

Caracídeos estão entre as primeiras espécies que podem ser extintas pelas mudanças climáticas

Animais têm baixa tolerância térmica e capacidade reduzida para se adaptar a águas mais quentes como as previstas para o futuro na Amazônia

Caracídeos estão entre as primeiras espécies que podem ser extintas pelas mudanças climáticas

Hyphessobrycon melazonatus é uma das espécies ameaçadas pelas mudanças climáticas na Amazônia. Foto: Reprodução/Guia de Peixes da Reserva Adolpho Ducke


Os peixes da família Characidae, mais conhecidos como piabas e lambaris, estão entre as espécies mais ameaçadas pelas mudanças climáticas na Amazônia. De acordo com o trabalho do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Derek Campos, esses peixes fazem parte da linha de frente da extinção que será provocada pelas mudanças ambientais em decorrência do aumento de temperatura.

“Essas espécies são vulneráveis, porque peixes como o Hyphessobrycon melazonatus e o Hemigrammus geisleri têm baixa tolerância térmica e, portanto, baixa capacidade para se adaptar a águas mais quentes, como as que teremos em breve”, explica Derek. A pesquisa sobre a fisiologia desses peixes de igarapé realizadas por Derek são pioneiras na Amazônia e foram publicadas na revista científica Ecological Indicators no artigo Predicting Thermal Sensitivity of Three Amazon fishes.

A ideia da pesquisa, que começou em 2015, era verificar se, de fato, como os organismos que ocorrem em ambientes térmicos homogêneos, protegidos pela floresta, são afetados pelas mudanças climáticas. “Quando começamos a olhar para os pequenos riachos e igarapés, que são ambientes mais homogêneos na questão da temperatura, pensamos que as mudanças climáticas poderiam ser muito mais danosas para espécies que ocorrem neles quando comparadas com peixes que vivem em ambientes mais abertos como os igapós e várzeas”, explica Derek.

Em quatro anos de observação, Campos observou que, dentro do mesmo ambiente térmico, espécies que têm estilos de vida diferentes, vão reagir de maneiras diferentes às mudanças climáticas. Os caracídeos são espécies mais ativas, comumente encontradas nadando da coluna d'água e, por isso, gastam mais energia, esse aumento no custo energético de sobrevivência, limita sua capacidade de enfrentam altas temperaturas. Isso significa que uma redução no suprimento energético leva a uma baixa tolerância térmica neste grupo.

Para efeito de comparação, o pesquisador também fez experimentos com espécies da família Cichlidae, dos acarás, que são mais sedentários e encontrados no fundo dos igarapés, normalmente parados. O estilo de vida dessas espécies, demanda menos energia, o que os faz mais tolerantes ao aumento de temperatura dos igarapés.

Ambas as espécies foram aclimatadas nas salas climáticas do INCT Adapta, nos cenários climáticos atual e mais extremo, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC/ONU). “Fizemos algumas análises do estresse fisiológico e energético em ambas as espécies, e observamos que os caracídeos apresentam um aumento do estresse fisiológico, danos celulares e maior mortalidade nesses ambientes. Eles também apresentaram capacidade de adaptação fisiológica a ambientes extremos muito reduzida. Isso quer dizer que essas espécies serão as primeiras a serem afetadas pelas mudanças climáticas”, diz.

Sobre a pesquisa

A pesquisa sobre peixes de igarapés foi a escolhida por Derek devido a carência de trabalhos sobre como os peixes da Amazônia lidam com as mudanças climáticas, principalmente com a temperatura. “Durante a revisão de literatura vi que a maior parte dos trabalhos disponíveis tinham como foco peixes de lagos, em áreas de várzea e igapó”, explica. Os espécimes usados por Derek foram coletados na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus (AM). No local, as temperaturas dos igarapés gira em torno dos 25oC, e a tolerância térmica dos animais ativos, tipo os caracídeos, fica entre 32oC e 35oC. Já os ciclídios, que são mais sedentários, é de 38oC a 40oC.

Sobre o pesquisador

Derek Felipe de Campos é bacharel em Ciências Biológicas com habilitação em Biologia Marinha pela Universidade da Região de Joinville (Univelle) em 2010. Mestre e doutor em Biologia de Água Doce e Pesca do Interior pelo Inpa, sob orientação da da pesquisadora Vera Almeida-Val, sendo uma parte na McMaster University, no Canadá, sob orientação do doutor Graham Scott. Atualmente é pós-doutorando e integrante do grupo de pesquisa INCT Adapta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Publicou 10 artigos científicos em revistas internacionais especializadas. Além disso, é revisor da Ecological Indicators, Science of The Total Environment e Thermal Biology. Sua linha de pesquisa envolve fisiologia comparada, fisiologia evolutiva, ecofisiologia e biologia térmica, investigando a plasticidade fenotípica no contexto da adaptação e suas implicações sobre os efeitos das mudanças climáticas em organismos tropicais, principalmente da Amazônia.