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Ana Claudia Oliveira da Silva

Ana Claudia Oliveira da Silva
Publicado dia 12 de ago de 2021 às 12:31

A Ciência ainda é a melhor resposta para solucionar desafios complexos.

Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), membro titular da Academia Brasileira de Ciências e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge.

A Ciência ainda é a melhor resposta para solucionar desafios complexos.

Nas últimas décadas, o impacto ambiental e climático tem sido tópico recorrente no cenário internacional. Desde a Primeira Revolução Industrial – que trouxe à sociedade uma nova forma de trabalho, com a inserção de máquinas e construção de fábricas –, o impacto ambiental e climático tem, gradativamente, ganhando escala exponencial.

 

Em três séculos de inserção destes novos processos de manufatura, importantes passos foram dados no mundo,  especialmente no que diz respeito aos avanços da ciência e tecnologia – com o desenvolvimento da engenharia genética e biotecnologia; além do surgimento da informática, robótica e eletrônica. Ao mesmo tempo, a sociedade industrial provocou um aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, um dos principais responsáveis pelo crescente aquecimento global, que ameaça o planeta, somado à ameaça de desastres globais decorrentes das mudanças climáticas.

O Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) analisou as descobertas científicas mais   recentes sobre o aquecimento global e fez um alerta: a demora na promoção de medidas para a crise do clima pode fazer com que a soluções baseadas no uso da terra fiquem menos menos eficientes, já que o aquecimento  do planeta induz à degradação dos ecossistemas e à perda de produtividade agropecúaria. O estudo também conclui que, em uma espécie de vínculo vicioso, solos e florestas doentes agravam as mudanças climáticas, que, por  sua vez causam impactos negativos na saúde das florestas e do solo.   

Hoje, mais de 250 milhões de pessoas vivem em lugares que estão em processo de desertificação e 700 milhões viverão em regiões áridas até o final do século. Em função da degradação do solo, a produção alimentar global deve registrar uma queda de 12% nos próximos anos. No Brasil, se a Amazônia, que contempla cerca de 20% da biodiversidade mundial, chegar a   cerca de 30% de sua extensão desmatada, poderemos atingir um ponto irreversível para sua recuperação, segundo os especialistas.

   

Em um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, a produção de alimento suficiente e de qualidade para todos representa objetivo essencial à vida humana. Enquanto a temperatura da Terra sobe, lavouras se tornam menos produtivas e mais vulneráveis a patógenos e solos se tornam menos férteis, o que, no fim das contas, reflete-se no que conseguiremos produzir para alimentar 7,5 bilhões de pessoas (ou 10 bilhões, até o meio do século). Não se sabe se, em menos de um século, a oferta de alimentos será suficiente para a garantia da segurança alimentar de toda a população.

 

Um cenário como este nos mostra cada vez mais a importância de políticas climáticas eficazes, da luta contra a  desinformação sobre o tema, da legitimidade da ciência, além do provimento de melhorias nos sistemas de transporte e energia. É urgente que empresas e líderes governamentais adotem soluções rápidas para evitar que o pior cenário se concretize. Destaque, especialmente, o trabalho da Ciência, que prevê cenários, antecipa dificuldades e indica as medidas necessárias para superar os mais graves desafios que se apresentam no caminho. No Brasil e no mundo, milhares de pesquisadores dedicam-se a solucionar tanto os problemas conhecidos, como a conhecer e identificar os impactos que ainda virão.

     

É preciso entender que a Ciência não pode ficar desassistida e só ser ativada no momento em que acontece o desafio. Seja esse desafio alimentar a população, seja combater as causas das mudanças climáticas. Ou mesmo proteger a humanidade de outros inimigos não menos letais, como o vírus da Covid-19. Aliás, este vírus não deixou de ter efeitos danosos também  sobre a segurança alimentar e nutricional do mundo, como indicam as avaliações preliminares da FAO (agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) que revelam que a pandemia pode ter acrescentado entre 83 e 132 milhões de pessoas ao total de malnutridos no planeta em 2020.

 

É nesse cenário, enquanto o mundo enfrenta uma das maiores ameaças à saúde pública da história moderna, que a Fundação Bunge homenageará profissionais da área de Ciências Agrárias, especialmente aqueles dedicados aos Impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos, um dos temas contemplados pela 65ª edição do Prêmio Fundação Bunge.

 

É preciso, cada vez mais, que a sociedade valorize a Ciência e que a entenda como uma importante ferramenta na solução de grandes desafios da humanidade.